Fiquei recostada em seu ombro. A única coisa que parecia viver meio ao velório do meu pai. No ano passado, minha tia me sentou em suas pernas e começou a cantar algo de que não me recordo, melodia acolhedora naquele jardim. Havia um ninho quase desfeito entre os balaústres que sentávamos até dar a hora da visita no hospital.

Todas as tardes, na hora da espera, passava por nós, curvado, com camisa de linho fechada até o último botão. Os olhos quase cobertos pelo chapéu de couro ressecado e, por entre as pernas, o cavalinho de madeira. Não olhe diretamente para ele, mas Criolando está indo a algum velório, está triste. Dizia minha tia.

Nunca entendi tamanha repulsa por esse sujeito. Na última quermesse da igreja Matriz, os meninos o cercaram, jogavam seu cavalinho de um lado para o outro. Ele ficava furioso ali no meio da zombaria. Criolando era respeitoso comigo. Toda vez que o encontrava pela rua, abaixava o chapéu e desejava bom dia.

Era olhado com curiosidade, como um animal sombrio que havia permanecido muito tempo na sombra e que reaparecia agora sujando a camisa com sua baba. Vivia entre os mortos e os vivos, embora eu menina, achasse os vivos sempre mais mortos que os próprios mortos. Uma vizinha falava. Ele é a Carpideira de Jaú. Porém, discordava veementemente.

Criolando como sabe que alguém morreu? Não foi noticiado ainda no rádio. Indagação coletiva respondida por – um amiguinho me contou, é um anjinho. Era de praxe estar em todos os velórios da cidade, naquela época os falecidos eram velados nas próprias casas. Com meu pai não foi diferente, mas as Moiras chegaram um dia antes para ele. Papai sempre foi ansioso, nasceu antes do tempo, morreu antes do tempo.

Fabricavam, teciam e cortavam o fio da vida de todos os indivíduos, segundo a mitologia grega. Eram três irmãs. A relação entre as Moiras e Criolando fazia muito mais sentido que a comparação com uma simples carpideira. Quando lembrava dele em casa, não achava nenhuma relação com o grotesco, mas com a simpatia. Ao nosso lado, no velório, mulheres fumavam. Estavam sérias, atentas com seus compridos pescoços de urubus esticados sobre nós.

Voltando ao ombro da minha tia, ela me perguntou olhando para o caixão. O que você estava conversando com aquele mau agouro? Respondi o mesmo que aquele dia no balaústre. Ele é artista, tia, sua obra é performativa, delicada, sensível, talvez, visionária. Ontem, antes de papai falecer, tocou a campainha de casa e perguntou – alguém morreu aqui? Fiquei assustada e disse, não Criolando ninguém. Hoje cedo, logo que o seu irmão descansou, ele voltou, bateu na porta e disse – agora morreu, não morreu? Choramos juntos.


Victor Grizzo

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.

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